Vacinação, uma responsabilidade social!

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Escrevi o texto de hoje para o meu blog profissional Amamenta France, mas o assunto é tão pertinente que achei que merecia um lugar também aqui…

Nos ultimos meses, este assunto tem sido alvo de acesas discussões na internet e fora dela.

Sou profissional de saúde, e a minha visão vale o que vale, no entanto este é um assunto demasiado sério para ser debatido com a ligeireza que vejo habitualmente.

Se por um lado a vacinação é uma decisão dos pais, por outro lado, essa decisão vai influenciar toda uma comunidade. A consequências de vacinar ou não vacinar vão muito além do seio de cada familia.

Até há uns anos atras, quem decidia não vacinar estava a tirar proveito de uma alta cobertura vacinal em termos comunitários. O que quer isto dizer? Que enquanto havia uma grande cobertura vacinal em termos comunitários, a prevalência de certas doenças era irrisória, portanto, mesmo quando alguém tomava a decisão de não vacinar os seus filhos, estes beneficiavam da proteção de grupo que mantinha as doenças “longe”.

Com o passar dos anos e o crescimento dos chamados “movimentos anti-vacinas”, o numero de crianças não-vacinadas foi crescendo um pouco por toda a europa, e os casos mais ou menos esporádicos que beneficiavam da proteção de grupo, passaram a ser mais consequentes e a abrir “janelas” de não-cobertura permitindo que certas doenças se voltassem a propagar. A escolha que antes era vista como um “aproveitamento injusto”, hoje coloca em causa a segurança de todos.

Em 1998 uma revista publicou um artigo que relacionava certas vacinas com o autismo, o que causou o pânico e levou a um aumento brusco de crianças não-vacinadas. Esse estudo no entanto continha graves irregularidades e foi retirado pouco tempo depois. No entanto continuou a circular e as consequências têm sido terriveis.

Não há qualquer estudo sério e reconhecido sobre este assunto.

Se as vacinas poder ter efeitos secundários? Claro! Todos os medicamentos podem ter.

Porquê que os profissionais de saúde não informam os pais de tais efeitos secundários? Da mesma forma que não informam os pais de cada vez que prescrevem um paracetamol (vulgo ben-u-ron) ou um antibiótico.

Os pais têm acesso à bula das vacinas compradas, quanto às outras, os pais podem sempre pedir a bula aos profissionais e isto nunca será recusado!

Todos os medicamentos têm efeitos secundários.

O parecetamol por exemplo. Parece um medicamento inofensivo, mas está longe de o ser! Há quem use e abuse deste medicamento, e ouço até muitas vezes “até as gravidas podem tomar!”. No entanto, tem havido estudos que indicam que não será assim tão inofensivo na gravidez. E uma sobredosagem séria de paracetamol, seja em crianças ou adultos, pode ter consequências gravissimas!

Mesmo o paracetamol deve ser usado com muita precaução. Muitas vezes, as mães perguntam se devem medicar o bebé antes da vacina. A resposta é não. Medicação é para ser utilizada em casos de verdadeira necessidade. Dar um ben-u-ron antes da vacina não vai diminuir a dor da picada. Para isso há outras formas de alivio da dor que podem ser postas em prática no momento, como dar de mamar, por exemplo. O ben-u-ron pode ser dado após a vacina, se o bebé ficar irritavel, ou com sintomas locais, mas a maioria dos bebés nem chega a necessitar de medicação!

Stevens-Johnson é outro exemplo de um efeito secundário extremamente raro mas gravíssimo que pode ocorrer após a toma de qualquer medicamento em qualquer altura da vida, mesmo já tendo tomado o medicamento questão varias vezes!

Um dos medicamentos mais associados a esse síndrome é a amoxicilina. A amoxicilina é o principal componente dos antibióticos mais prescritos. Mas quantas pessoas sabem disso?

Será que os profissionais de saúde deviam alertar para estas questões? Se calhar deviam! Sempre que um medicamento é prescrito deveria haver uma espécie de “consentimento informado” sobre este assunto. Algo simples marcado na receita e que as pessoas deviam assinar, algo do género “Todos os medicamentos são susceptiveis de causar efeitos secundários, em casos raros esses efeitos podem ser graves. Declaro que tomei conhecimento deste facto e para mais informações comprometo-me a ler a bula do medicamento prescrito”.

Mesmo quando o assunto são vacinas!

E isto é uma questão de saúde publica.

Não vacinar com base em mitos ou artigos duvidosos coloca em risco anos e anos de avanço em saúde pública!

Temos a sorte de ter nascido numa zona do globo que nos permite ter acesso a cuidados de saúde que estão a anos luz de outras regiões. Temos a sorte de ter à nossa disposição recursos que nos permitem prevenir certas doenças.

A questão da vacinação está longe de ser uma decisão que afecta apenas cada um de nós!

A OMS está em alerta com a situação actual. O sarampo, que estava perto de ser uma doença erradicada na Europa, voltou em força e está a tornar-se preocupante! Há já dezenas de mortes a lamentar e centenas de casos por toda a Europa!

Longe de serem doenças “benignas”, a vacinação é a única forma de garantir a proteção de toda uma população, incluindo de quem por razões de saúde não se pode vacinar.

A proteção dos bebés pequenos e das pessoas imunodeprimidas (entre outros!) dependem da proteção comunitária! Se certas doenças podem ser quase inofensivas para crianças e adultos saudaveis, são potencialmente fatais para bebés e pessoas imunodeprimidas, como é o caso, por exemplo, da tosse convulsa. Mas há mais!! E a esmagadora maioria pode ser prevenida através da vacinação!

A vacinação, sendo fortemente recomendada, não é obrigatória na maioria dos países. Em Portugal não há vacinas obrigatórias. Em França só a DTP (difteria, tétano e poliomielite) é obrigatória.

No entanto, a vacinação mais que uma obrigação, é uma responsabilidade.

Todos nós, que vivemos em sociedade, temos uma responsabilidade comunitária! Uma responsabilidade que vai muito além das nossas quatro paredes!

Vale a pena pensar nisto 😉

Aqui fica a reportagem da sic sobre o assunto, e os links da OMS em francês e inglês sobre alguns mitos associados à vacinação…

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-03-31-OMS-preocupada-com-numero-crescente-de-casos-de-sarampo-na-Europa
http://www.who.int/features/qa/84/fr/

http://www.who.int/features/qa/84/en/

Amamenta France, existimos para informar!

 

Porque é urgente devolver o poder de escolha/decisão aos pais!

“Todos os pais são largamente regados de conselhos bem intencionados, e  de”perguntas” cheias de entre-linhas sobre a educação que dão aos seus filhos.Tudo se diz, e o seu contrario. Os pais recebem uma abundância de conselhos. Mas, soma feita, pouquíssima informação. (…) Os pais tem muita dificuldade em fazer a triagem das diversas concepções. Rapidamente se sentem desorientados, e até mesmo desamparados.  ”

Isabelle Filliozat in “Au cœur des  émotions de l’enfant” (tradução do excerto da minha exclusiva responsabilidade)

Este paragrafo de Isabelle Filliozat resume muitíssimo bem o que se passa na nossa sociedade hoje em dia.

Assim que a mulher engravida, os conselhos chovem de todos os lados, e uma vez que tem o bebé nos braços, esta realidade intensifica-se.

Pessoal de saúde, família, amigos, conhecidos, a senhora da pastelaria e até mesmo desconhecidos! Toda a sociedade se julga no direito de impor, julgar e questionar as escolhas e as decisões dos pais. Mas como o diz Isabelle Filliozat, poucas pessoas se preocupam em informar verdadeiramente os pais. “Deve fazer assim”, “tem de fazer assado”, “no seu lugar eu faria cozido”. Aos pais, resta muito pouca margem para fazer escolhas. Acabam, na maioria das vezes, por tomar decisões mais ou menos impostas.

Como consequência temos, cada vez mais, pais com pouca confiança em si mesmos e a tomar decisões sem estarem verdadeiramente seguros das suas escolhas.

Cada mãe/pai deve poder ser capaz de tomar as melhores decisões para o seu filho, a sua família, a sua realidade.

Escrevi este texto para o meu site  “Tour d’Amour” (o meu GRANDE projecto, a minha grande aposta, o meu sonho quase a tornar-se realidade!)

Poderia dizer muito mais acerca deste assunto. Que se tornou numa imensa bola de neve, onde o pessoal de saúde cada vez é mais invasivo e autoritário, cada vez impõe mais e informa menos, com medo que algo aconteça ao bebé. Isto porque cada vez mais pais processam o pessoal de saúde quando algo não corre bem, empurrando para eles toda a responsabilidade no assunto.

Mas, vamos pensar um pouco, porquê que isto acontece?

Porque os pais cada vez mais são despojados das suas responsabilidades. “Eu fiz isto porque tal pessoa me disse para fazer!”

E eu assisti a essas imposições enquanto trabalhei na maternidade! “O bebe TEM de dormir de costas” “é PROIBIDO o bebé dormir na cama dos pais”. Estas eram, entre outras, as mais comuns. E isto é tirar todo o poder de decisão e de responsabilidade aos pais!

Não seria mais correcto dizer algo do estilo “A OMS recomenda deitar os bebés de barriga para cima, porque de acordo com estudos feitos, provou-se que é a posição mais preventiva da morte súbita do lactente por causa disto e disto e disto”? E os pais, sabendo todos os riscos e todos os porquês, tomam as suas decisões.

E claro que ha excepções! Claro que ha profissionais a agir desta forma! E claro que ha famílias cuja capacidade de analise e reflexão esta  muito comprometida, e nesses casos deve falar-se de forma mais assertiva.

Mas aquilo que deveria ser a excepção e não a regra, esta de pernas para o ar.

No meu texto original continuo, e explico a minha forma de trabalhar:

“Nos queremos que o nosso acompanhamento possa ajudar os pais a renovar a confiança nas suas competências parentais.

Para isso, comprometemo-nos a:

  • Informar (informações actuais e fiáveis)
  • Escutar (escuta sem julgamento)
  • Estar disponíveis (disponibilidade para responder às suas questões)
  • Acompanhar (acompanhamento nas suas escolhas)
  • Trabalhar a auto-confiança (o facto de se sentir informado e acompanhado permite aumentar a sua auto-confiança)

Cada bebé, cada mãe/pai, cada família são únicos e especiais, por isso são sempre o centro de cada uma das nossas intervenções.

As vezes perguntam-me: “E se os pais decidirem, por exemplo, que a criança só pode comer de manha e a noite? Vai acompanha-los na sua escolha? ”  Ora, isso para nos não é um direito de escolha, pois o nosso acompanhamento compromete-se a garantir que todas as necessidades da criança são asseguradas.

Mas quando falamos de necessidades asseguradas, não ha uma forma única de o fazer correctamente. E isso é o mais importante: que cada mãe/pai possa sentir que toma as suas próprias decisões, aquelas que são as mais adequadas para a sua família e para a sua realidade naquele momento da sua vida, e não as que os outros acham as mais indicadas.”

Quem me conhece sabe que sou a 200% a favor da amamentação! Mas terei o direito de o impor? Terei o direito de julgar uma mulher que opta por não amamentar? Serei mesmo eu, a pessoa indicada para saber o que é melhor para aquela mãe, para aquela família? Sera melhor uma mãe que amamenta por imposição (conheci algumas!) em que por causa disso a mãe não se sente bem, a amamentação não corre bem, o bebé não ganha peso, e a relação mãe/bebé sofre com este stresse? Ou sera preferível uma mãe segura de si, que não amamenta, mas que tem uma óptima relação com o bebé?

O meu papel é o de informar! Informar que o leite materno é o melhor para os bebés por causa disto e disto e disto. Mas não posso dizer “o leite materno é o melhor para O SEU bebé”. Se falarmos em termos nutricionais sim, mas e tudo o resto? Eu não posso saber o que é melhor para aquele bebé/mãe/família!

E quem fala da amamentação fala de imensas outras coisas!

Alguém gosta de ouvir um “não porque não!” ou um “sim porque sim!”? Mas era isto que eu via todos os dias ser transmitido aos pais.

Acompanhar sem impor. Porque é urgente devolver o poder de escolha/decisão aos pais. Porque é urgente parar de impor. Porque é urgente começar a informar correctamente!

Assim vai a vida… aos olhos de uma enfermeira!

Cortinados com fios: o perigo à espreita na janela!

Muitas são as campanhas que se fazem para informar os pais sobre a prevenção de certos acidentes domésticos con crianças: quedas, queimaduras, intoxicações, afogamentos. Mas raramente vi informação sobre um dos maiores perigos que se pode ter em casa: os cortinados com fios.

Todos os anos morrem dezenas de crianças por asfixia, a maior parte em acidentes deste género (fios de cortinados, cordas de baloiço, etc).

Na breve pesquisa que fiz não consegui encontrar dados estatisticos relativos a portugal.

Nos Estados Unidos a cada duas semanas uma criança entre os 8 meses e os 7 anos morre ou fica com sequelas graves e permanentes devido a asfixia por estrangulamento com fios de cortinados.

Em Portugal soube de um triste caso estes dias. Uma criança de 3 anos morreu estrangulada nos fios dos cortinados. Infelizmente não é um caso isolado, e infelizmente a prevenção nesta matéria é muito pouca ou inexistente.

Serve este post para alertar todos os pais dos perigos que muitas vezes vivem connosco sem que nós sequer possamos sonhar que aquilo representa um perigo.

Deixo-vos aqui um video que foi feito no sentido de uma campanha de sensibilização nos Estados Unidos.

O video é forte e contém imagens chocantes. É um confronto com a perigosa realidade. Para quem quer ver o video deixo aqui o link:

Os meus sentidos pêsames aos pais da criança que faleceu esta semana, bem como a todos os outros que passaram por algo semelhante. Porque devia ser proibido perder um filho.

 

Assim vai a vida… aos olhos de uma mãe

Para ti recém-mamã que amamentas!

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Minha querida recém-mamã, tu, que acabaste de dar vida a um pequeno ser maravilhoso, estás radiante! És uma mãe linda, embora a maioria das pessoas só te falem no bebé. Estás radiante e irradias amor, orgulho e felicidade!

Tu que decidiste amamentar o teu bebé, oferecendo-lhe um dos maiores presentes que lhe poderias dar nesta fase, estás a fazer tudo correcto e não deixes que vizinhas abelhudas, familiares metediços ou amigos da onça te venham dizer o contrário!

O teu bebé não tem vício de mama. O teu bebé tem “vício” de amor e de aconchego. Lembra-te que há tão pouco tempo ele ainda estava no sitio mais seguro e aconchegante do mundo: a tua barriga!

A sucção acalma-o, o teu cheiro apazigua, o bater do teu coraçào reconforta! E isso nada tem a ver com “vício de mama” ou fome.

Ao longo desta tua nova caminhada vais ouvir muitas coisas, incluindo que estas a habituar mal o teu bebé, que ele já tem “o tal” vício da mama, ou que se calhar o teu leite já está a falhar.

Por favor, cada vez que alguem te disser alguma destas coisas, lembra-te de como tudo tem corrido tão bem. Lembra-te de que tens profissionais competentes para te acompanhar em caso de dúvidas reais. Lembra-te que tens de confiar em ti, no teu bebé, e na natureza, porque essa, 90% das vezes faz tudo bem feito!

É ela que faz com que o bebé passe um bom momento acordado logo após o parto, para favorecer a primeira mamada nas primeiras 2h após o parto. É a natureza que faz com que a grande maioria dos bebés caia depois num sono profundo que dura cerca de 24h, em que tem quase sempre que ser acordado para comer de 6 em 6h e mesmo assim não mama muito, pois tem reservas suficientes para passar várias horas sem mamar e poder recuperar do esforço do nascimento. É também a natureza que faz com que o segundo dia e a segunda noite sejam os piores para a mãe, pois após esse sono revitalizador o bebé tem de comer, e principalmente informar o corpo da mãe que está à espera da subida do leite – que se faz por volta do terceiro dia e muito graças a esta estimulação do bebé. Por este motivo no segundo dia e segunda noite os bebés pedem para mamar quase de hora a hora, deixando muitas vezes as mães desesperadas e preocupadas quando não são devidamente informadas…

E é a natureza que faz com que este ultimo ponto seja cíclico e aconteça com alguma frequência: em determinadas alturas o teu bebé vai querer mamar de hora em hora, durante dois ou três dias, para informar o teu corpo de que está a crescer e que o teu corpo precisa de adaptar a produção de leite às suas necessidades.

Isto vai acontecer por volta dos 15 dias, 3 semanas, 6 semanas, 3 meses, 4 meses 6 meses e 9 meses.

Nestas alturas vais sempre colocar-te a questão se o teu leite estará a alimentar o suficiente, se será pouco ou “fraco” e haverá sempre quem – julgando-se entendido na matéria – te vai aconselhar a ir comprar uma data de leite. Depois vais lembrar-te que existem picos de crescimento e vais ficar mais descansada. Além disso relembro aqui que não há “leite fraco”, há é bebés com mais dificuldades.

E se apesar de tudo continuares insegura ou com duvidas, antes de avançares com outros metodos – muitas vezes sugeridos por quem não perde uma oportunidade para tentar mostrar à mãe que ela está a falhar – fala com um profissional especialista na matéria, pode ser um/a enfermeiro/a ou uma CAM. (E tu minha querida Ana, tens-me sempre a mim, disponivel 24h/24, 7 dias por semana ❤ l

Por isso goza o teu bebé, mima-o muito, amamenta-o quando tem fome e quando só quer um aconchego, pega-lhe sempre que ele pedir, não o deixes chorar no berço se o podes acalmar com o teu aconchego… independentemente do que te digam! E não te esqueças que até aos 9 meses na cabeça do teu bebé vocês são uma só pessoa e sem ti ele sente-se perdido! Ama-o e sente-te amada!

Vive esta experiência maravilhosa sem medos!
Para ti recém-mamã, mulher fantástica, um abracinho apertadinho!
Assim vai a vida… aos olhos de uma mãe… enfermeira!

Afinal, o Pai deve ou não assistir ao parto?

 

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Esta é uma pergunta que surge inumeras vezes, e para qual há imensos artigos em resposta, basta fazer uma busca no famoso google e, bingo! temos respostas para todos os gostos e feitios.

Mas será mesmo esta a pergunta certa a fazer?

Hoje li um artigo (este) que saiu na “maxima” sobre se o pai deve ou não assistir ao parto. Confesso que como mãe, e como profissional, fiquei um pouco surpresa com a “qualidade” do artigo.

Quando esta ginecologista-obstetra diz que “o momento (do parto) é sempre muito pouco sexual.” está a insinuar que tudo o que envolve a vida de um casal tem de ter uma conotação sexual, ou seja, é o mesmo que estar a restringir as relações de um casal a uma mera relação de interesse sexual, o que a meu ver é francamente depreciativo.

Como profissional, posso dizer que não há nada mais bonito do que a cumplicidade de um casal no momento do nascimento de um filho.

Como mãe, para o meu primeiro filho quis ter a minha mãe comigo no parto, por opção, por várias razões, incluindo por esse medo de interferência na sexualidade do casal. Infelizmente este facto – presença ou ausência do pai no parto e os motivos – nunca foi abordado connosco por nenhum dos profissionais que nos acompanharam. Nos outros dois partos o pai esteve lá e foi simplesmente magnifico, uma experiência de partilha e cumplicidade inigualável!

Mas não adianta negar: nos primeiros meses a sexualidade do casal é afectada pelo nascimento de um filho. Ponto final. Aliás, toda a relação leva um abanão, e, das duas uma: ou sai mais forte, ou sofre danos (quase) irreversiveis. E isso é “assistir-ó-parto independente”.
Mas fiquemo-nos pela parte do parto e da sexualidade.

Nos primeiros meses a sexualidade é afectada por varios motivos, sendo os dois principais a baixa líbido da mãe e a necessidade do casal de se (re)encontrar nesta nova vida com mais um membro na familia. Afectada não significa anulada, e há casais que ao final de muito pouco tempo retomam a sua vida sexual, mas continuam a precisar de um “tempo de adaptação” para que possam voltar a viver a sexualidade em pleno. Havera excepções, claro, mas não é a regra. E isto acontece de cada vez que nasce um filho, independentemente de ser o primeiro ou o quarto.

Mas afinal, o pai deve ou não assistir ao parto?

Não tenho resposta a esta pergunta. Simplesmente porque “Pai” não define um conjunto de progenitores do sexo masculino. “Pai” é AQUELE homem, um ser único, marido ou companheiro DAQUELA mulher, com a sua história de vida e a sua personalidade. E por essa razão não há uma resposta universal para uma pergunta tão genérica.

Por isso, a meu ver, a pergunta correcta será: “ESTE Pai quer assistir ao parto”? Ou “ESTE Pai está preparado para assistir ao parto?” E consequentemente, o quê que nós, profissionais, podemos fazer para que AQUELE Pai se sinta confortavél de modo a poder apoiar a sua companheira e viver esta experiência plenamente?

Deixemos o casal decidir, com o nosso apoio e acompanhamento, ao invés de andarmos a dar opiniões-do-arco-da-velha.

Sexualidades à parte, o apoio que o pai dá à mãe na sala de partos é insubstituivel! E a emoção vivida a dois é algo único!

Opiniões há muitas 😉

Assim vai a vida… aos olhos de uma enfermeira!

Desabafos de uma enfermeira emigrada

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Há quase 6 anos que trocámos o clima ameno do nosso país pelo clima mais fresco da Suiça.
Não sinto falta do nosso país. Não me intrepretem mal. Tenho muitas saudades do nosso Portugal à beira mar plantado, da praia e do verão prolongado até outubro.

Mas não sinto falta do país político, dos contratos de trabalho anuais sem certeza de renovação, do ordenado que envergonha os quatro anos de escola superior e o consequente investivemento pessoal e financeiro. Mais que isso, o ordenado que envergonha a dedicação que cada enfermeiro põe em cada gesto, em cada turno, em cada natal que não passa com a familia, em cada dia da mãe ou do pai que não passa com os filhos.

Não sinto falta de não ter uma carreira, nem perspectivas de evolução na profissão. Não sinto falta de não passar da “cepa torta” tanto em ordenado como no terreno. Não sinto falta de não ter quem defendesse os meus interesses.

Não sinto falta de ter sede de novos desafios e projectos que nunca podiam ser levados a cabo, ora por falta de verba ou simplesmente por falta de interesse das chefias que mantinham uma constante relutância a tudo o que implicava ideias novas e mudanças.

Por tudo isto e mais ainda, vi-me aliciada a embarcar nesta aventura da emigração. Com perspectivas de trabalho com um salario decente, condições de trabalho dignas, valorização. Nestes quase 6 anos na suiça ja fiz mais do que talvez teria oportunidade de fazer em toda uma carreira em Portugal.

Não sinto falta de ser desrespeitada ou menosprezada pelo meu país.

O que eu sinto falta é das pessoas…

Sinto falta das jantaradas com os amigos, e das tardes de verão no “Menino Julio dos Caracóis” ou no “Modesto”. Dos cafés inesperados resolvidos à ultima hora e que eram quase sempre os melhores.

Sinto a falta de abraçar as minhas amigas do coração quando elas me contam que vão casar, e sinto a falta de as poder abraçar no dia em me contarem que vão ser mães.

Sinto falta de telefonar à minha mãe e começar a conversa com um “há jantar para nós?” e acabar com um “então até logo”… sinto a falta do colo dela nos dias mais dificeis, e sinto a falta do seu abraço a cada nova conquista.

Sinto a falta de todos os momentos em que privo os meus filhos da companhia da avó e dos tios.

Sinto a falta das conversas animadas que deram lugar a reuniões no skype muitas vezes conturbadas por problemas na rede.

Sinto a falta de abraçar o meu irmão sempre que me apetece e de lhe dizer cara a cara que é uma pessoa maravilhosa.
Sinto a falta de o poder abraçar no dia em também ele me vai dizer que vai casar…. e eu estarei longe.
Sinto a falta de poder estar ao seu lado no dia em que me vai anunciar que o seu filho nasceu…. e eu estarei longe.

Sinto a falta de todos os momentos em que estou longe e deveria estar presente.

Este é o preço a pagar pela emigração. Este é o preço que pago- as vezes demasiado alto, parece-me – por ter tido a dose de loucura necessaria para deixar tudo e partir. E apesar de tudo não me arrependo!

Parti, não só em busca de uma vida com melhor qualidade para os meus filhos, mas também em busca de uma Enfermagem com a qual me identifico e que me deixa fazer aquilo que sei fazer melhor: Cuidar pessoas!

 

Assim vai a vida… aos olhos de uma enfermeira!

Xaropes contra a tosse? Não, obrigado!

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Uma das duvidas que surge com frequência nas redes sociais em grupos e fórum de mães é sobre a tosse, os respectivos xaropes e o que fazer para a criança parar de tossir.

No inverno é muito comum a criança tossir. A tosse pode ser apenas um sintoma (quase) isolado acompanhado apenas de um pingo no nariz e um ou outro espirro, ou pode ser um sintoma de outras doenças como bronquiolite, asma ou pneumonia por exemplo.

Diferentes causas, diferentes diagnósticos, diferentes prognósticos mas uma caracteristica comum: a tosse é o mais importante mecanismo de defesa do pulmão.

O pulmão não tem como se defender sem ser pela tosse. A tosse é assim como que um sensor-anti-intrusos do pulmão, seja quando nos engasgamos com algum pedaço de alimento por mais pequeno que seja, com alguma bebida ou até com a propria saliva, seja por presença de secreções que chegam através das vias respiratórias superiores (boca e nariz), ela esta lá para dar o alarme e por o intruso a mexer dali para fora. O pulmão não gosta de “inquilinos” e a tosse é o mecanismo que garante que a privacidade do pulmão é respeitada.

Um pulmão cheio de secreções é um pulmão com maior risco de “infectar”. É importante que o mecanismo que explusa eficazmente as secreções seja conservado: a tosse!

Por esta razão são completamente desaconselhados os xaropes anti-tússicos (que são a maior parte dos xaropes para tosse). Ao inibir o reflexo da tosse estamos a deixar o pulmão completamente vulneravél aos seus intrusos, neste caso as secreções, e exposto a uma potencial infecção.

Então o que fazer?

Por mais que custe o melhor é mesmo deixar tossir, oferecer bastante àgua, pois ajuda a fluididicar as secreções (torná-las mais liquidas) para que o pulmão – através da tosse – as possa expelir mais facilmente. Se as secreções forem mesmo muito espessas pode pedir ao pediatra um xarope para ajudar a fluidificar as secreções, ou seja um expectorante.

Mas porque razão é de noite que a tosse é mais forte?

A explicação é simples: de dia na posição vertical as secreções vão sendo eliminadas pelo nariz. Já à noite, na posição horizontal as secreções “escorrem” para trás, chegando mais facilmente ao pulmão desencadeando assim o reflexo da tosse.

Quando consultar o médico?

– Em bebés com idade inferior a 6 meses ou não vacinados. A tosse convulsa (ou coqueluche) é uma doença grave nas crianças com idade inferior a um ano. Só ficam protegidas contra a tosse convulta duas semanas após a segunda dose da vacina que é dada entre os 4 e os 6 meses. Até la a unica protecção que podemos dar à criança é vacinar os adultos e outras crianças que estão frequentemente em contacto com ela (pais, irmãos, avós, educadoras ou amas);

– Quando a tosse é acompanhada de outros sintomas como febre há mais de 3 dias, dores no peito, dificuldade respiratória ou dificuldades em hidratar-se;

– Diminuição do estado geral da criança;

– Tosse com duração superior a três semanas;

E se sentir necessidade não hesite em contactar o seu pediatra, ele é a melhor pessoa para o aconselhar!

 

E assim vai a vida…. aos olhos de uma enfermeira